MAL DE ALZHEIMER, A FALÊNCIA DO CÉREBRO


Estudada a partir do início do século passado pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer esta doença está se popularizando a cada dia. Não que ela não afetava as pessoas, mas pelo fato de ser confundida com sintomas da senilidade, caduquice como se costuma dizer. O que me motiva a escrever sobre o assunto é ter vivido paralelamente esse drama, ou seja, durante os sete anos que minha mãe passou pelo sofrimento tive a experiência suficiente para falar do assunto, não como especialista mas como paciente, sim paciente porque nesses casos a família se envolve literalmente.

O início
Como o dia que escurece lentamente o comportamento vai se alterando, os reflexos se enfraquecendo e as manias aumentando, se fixando em algum ponto, como por exemplo: “fechou a porta?”, onde “coloquei a chave?”, “vamos embora?”..., e por aí vai...

As mudanças da personalidade
Perdendo o jeito habitual a pessoa muda a personalidade como alguém que encarna uma entidade estranha. A autocensura se extingue a ponto da criatura se tornar inconveniente, nesse estado ela não conhece mais ninguém, mistura os nomes embaralhando o passado com coisas imaginárias; enfim, os sintomas são de pura loucura.

O pesadelo
Os familiares que convivem diariamente têm a impressão de estar sonhando, tal o desconforto que fica no ambiente, os afazeres ficam para segundo plano, cada noite representa uma ameaça, quando menos se espera começa a gritaria, se apegando com alguma bobagem o falatório se prolonga, até o remédio entrar em ação e derrubar “fera”.

Os médicos e os remédios
O acompanhamento médico e os medicamentos são a âncora que evita de o barco se desgovernar de vez, porém com o passar do tempo as drogas vão perdendo a eficácia exigindo mudanças periódicas, do mesmo modo, quando o médico não corresponde às expectativas deve-se mudar.

Casa de repouso ou o próprio lar?
Esta é uma questão delicada e não deve ser analisada sob o fervor da emoção, tampouco com a frieza do escapismo. Cada situação é um universo que deve ser analisado cuidadosamente pois, na maioria dos casos, envolvem filhos, noras, genros, resumindo, gente com grau de parentesco e sentimentos desiguais o que dispensa comentários; essa situação precisa ser resolvida e requer flexibilidade, muito diálogo e bom senso para que ninguém saia machucado, do contrário o problema se multiplicará contaminando o relacionamento familiar.

Aprendendo com a doença
Já que o pesadelo não é um sonho, o melhor a fazer é encará-lo como uma missão que nos foi atribuída, e foi desta forma que as coisas foram mudando para melhor. Aprendemos que o tempo aparentemente perdido com os cuidados dispensados ao enfermo não fazia falta, em outras palavras, nossa postura perante a vida mudara, as ações ficaram mais sábias e realistas. Outra descoberta importante foi que os resquícios do passado foram se depurando durante o período, deixando evidente que as atitudes positivas se sobrepõem às demais.

O cérebro e a alma
Não há faculdade ou escola que possam ensinar o que se passa na transição desta vida para outra dimensão, somente o protagonista se apodera do conhecimento, aos coadjuvantes, cabem as migalhas da observação e foi isso que eu fiz, apanhar as sobras do processo.
Enquanto o cérebro agoniza, as experiências passadas começam a travessia migrando para a outra margem, é como alguém que transporta num barco sua bagagem, deixando para traz o que não será usado. É singular ver a criatura entre dois mundos, se definhando do lado físico e crescendo no espiritual.

Epílogo
Optando pela não internação conforme falei de início, a doença de Alzheimer criou situações inesperadas e nelas percorremos os extremos das emoções, a indignação e a fúria da inconformidade se mesclavam com a dor e a tristeza de nossa impotência perante a enfermidade, o cansaço criava momentos de tensão e ira por ter que passar por aquilo. No entanto, de repente éramos envolvidos pela ternura de um olhar que surgia em estado puro transmitindo o otimismo de alguém dizendo: “eu estou muito bem apesar da aparência”, nessas horas a vida mostrava seu lado oposto e, na ausência do sol, as estrelas nos consolavam.
Por maior o amor que se tenha, nesse estado de coisas a morte deixa de ser uma morada temida e passa ter um significado libertador,a  porta que se abre para o pássaro voar livre. E assim, foi o derradeiro momento...


José Antonio Sespedes

 


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